A capital do Sol, como é conhecida Natal, tem belas praias, passeios de bugue nas dunas e uma excelente gastronomia, principalmente no que se refere ao Camarão – por isso quem nasce no Estado do Rio Grande do Norte é chamado de Potiguar que vem da língua indígena tupi. A palavra original poti’war significa “aquele que come camarão”, crustáceo encontrado com fartura no litoral do estado.

Mas a capital do Rio Grande do Norte não conta apenas com o turismo de sol e mar e o turismo de lazer. Natal abriga e é palco de um cenário que no século XVII, na invasão holandesa causou a prisão do padre Ambrósio Francisco Ferro. O mesmo foi o segundo Pároco da Igreja mais antiga da cidade, Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação, que foi erguida na mesma data da fundação da cidade, no ano de 1599.

Relatos históricos dizem que na invasão holandesa, o padre Ambrósio, por receio dos holandeses destruírem todo o acervo da Igreja, escondeu dentro da parede, um Ostensório (objeto litúrgico que leva em procissão a Santa Hóstia, corpo e sangue de Jesus Cristo, para adoração dos fiéis).

Ostensório escondido pelo Padre Santo Ambrósio Francisco Ferro – Foto Divulgação

O receio do padre Ambrósio se concretizou: com o domínio holandês no século XVII a Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação se torna um templo Calvinista.

No período de 1633 a 1654, os holandeses dominaram a capitania do Rio Grande. Naquela época Natal possuía apenas 40 casas. A Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação transformou-se em Templo Calvinista, a partir da prédica realizada pelo pregador Johanna em 18 de dezembro de 1633.

Português dos Açores, Padre Ambrósio foi Pároco de Natal, a partir de 1636. Refugiou-se na Fortaleza dos Reis Magos e de lá foi levado para o martírio de Uruaçu, a 3 de outubro de 1645, juntamente com 80 fiéis de sua Paróquia. Ele é um dos Santos Mártires do Brasil, canonizado pelo Papa Francisco no ano de 2017

No ano de 1654, os invasores flamengos forma expulsos da Capitania, mas destruíram tudo o que puderam inclusive os livros de registros referentes a Igreja. (Fonte: Historiador Professor Anderson Tavares de Lyra).

Neste caso o único registro histórico que a igreja possui é o ostensório que foi escondido pelo Santo Mártir Padre Ambrósio Francisco Ferro.

O objeto litúrgico foi encontrado na década de 90, precisamente no ano de 1994, quando a igreja passou por uma reforma para o resgate de sua história e memória. A reforma foi solicitada e acompanhada pelo então pároco da época, Monsenhor Agnelo Dantas Barretto. Durante a reforma, próximo à pia batismal, foi encontrado escondido na parede o ostensório que data do século XVI.

Neste mesmo período também foi encontrado o corpo de André de Albuquerque Maranhão.

André de Albuquerque Maranhão, também conhecido como Andrezinho de Cunhaú, nasceu no Engenho Cunhaú, no atual município de Canguaretama (RN). Seu pai tinha o mesmo nome, e sua mãe se chamava D. Antônia Josefa do Espírito Santo Ribeiro; eram uma das famílias mais ilustres do Rio Grande do Norte.

André tinha um pensamento revolucionário, comandava a Cavalaria que guardava as fronteiras entre Rio Grande e Paraíba, e simpatizava revoluções de libertação da coroa.

Em 28 de março de 1817 juntamente com sua tropa, parentes e oficiais, ele chegou a cidade e implantou um governo provisório. Esse acontecimento se chamou “Revolução Republicana de 1817”, reflexo da Revolução Pernambucana que eclodiu no dia 6 de março, e ele foi o líder.

Mas pouco tempo depois o comandante da tropa de linha Antônio Germano, e seus soldados, invadiram o palácio do governo aos gritos de “Viva o Senhor Dom João VI” e “Morra a Liberdade”, e encontram André de Albuquerque na mesa dos despachos. Ele negou sua rendição, sofreu um golpe de espada em sua região inguinal, e ainda teve os dedos cortados provavelmente por tentar segurar a espada.

Foi então jogado pela janela do palácio e preso sozinho em uma cela na Fortaleza dos Reis Magos. Sem qualquer assistência médica, com ferimentos abertos e órgãos dilacerados, sangrou até morrer.

No dia seguinte, seu corpo foi retirado da fortaleza e transportado totalmente sem roupa pela cidade. Lá, o cadáver sofreu humilhação pública até ser sepultado na Igreja Matriz de Natal, ou Igreja de Nossa Senhora de Apresentação, a primeira igreja do Rio Grande do Norte, e marco zero da cidade.

Hoje a praça onde se encontra a Igreja Matriz ganhou o nome dele. Nesta mesma praça também há um monumento em homenagem a ele e ao Padre Miguelinho. (fonte: https://curiozzzo.com/foto-rara-dos-ossos-andre-de-albuquerque/)

Sobre o corpo de André de Albuquerque, o historiador Câmara Cascudo já dizia que se encontrava sepultado na Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação.

No ano da reforma da igreja, nas escavações realizadas por profissionais técnicos, foi encontrado na nave esquerda da igreja o túmulo com um esqueleto acorrentado, desta forma foi constatado ser os restos mortais de André de Albuquerque Maranhão.

Com esta grande força histórica e religiosa a Secretaria de Turismo de Natal elaborou o roteiro histórico e sagrado, onde no centro histórico da cidade estão presentes as três primeiras igrejas.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação, fundada no ano de 1599

Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação – Foto Canindé Soares

Esta igreja católica é dedicada à padroeira da capital potiguar, Nossa Senhora da Apresentação, e é a primeira igreja do Rio Grande do Norte, apesar de não ser a primeira capela, já que temos a capela dos Reis Magos na Fortaleza. Originalmente foi uma capela de barro e palha, e não possuía portas até 1614. Sua construção se deu com a fundação da cidade. Não temos a data de fundação da freguesia, sabemos, no entanto, o nome do primeiro vigário, Gaspar Gonçalves da Rocha, que a recebia em 1601. Foi finalizada somente em 1619. Quando os holandeses invadiram, eles a tornaram um templo luterano com o pastor Johanna e quando abandonaram a capital, em 1654, destruíram a igreja. Depois do retorno português, ela foi recuperada dos estragos pelos colonos, mas ninguém queria ser pároco de um lugarejo com vinte e cinco moradores brancos, cercados pela ferocidade dos brasis, os padres Leonardo Tavares de Melo e Paulo da Costa Barros foram os únicos que se ofereceram.

Tavares de Lira comenta sobre a reforma de ampliação: em 1694, a capela se torna igreja, até ao rei de portugal se pediu esmolas para levantar as paredes de pedra; em 1786 uma remodelação geral, já que ela ruíra, recebendo seu batistério e são construídas as capelas laterais para as irmandades de Bom Jesus dos Passos e do Santíssimo Sacramento. Em 1856, os mortos são proibidos de serem enterrados em seus corredores, e no mesmo ano sua torre ganha um relógio. Somente em 1862 sua atual edificação foi completada com a construção da torre do sino. Em 1871, ela ganha seu assoalho de madeira, aproveitando o tabuado de um naufrágio. Mas as modificações mais importantes foram feitas sob o comando do padre João Maria, que foi pároco da igreja entre 1881 e 1905. São desse período as arcadas, tribunas, púlpito, coro e ladrilhos.

Em 1994 um processo de restauração coordenado pelo Monsenhor Ângelo Dantas Barreto e pelo arqueólogo Paulo Tadeu Souza de Albuquerque foi executado. Elementos acrescentados ao prédio no século XIX foram removidos e se preferiu manter em evidência os diversos planos e construções pelo qual a igreja passou, sem preferir nenhum momento histórico específico. Segundo o historiador Itamar de Souza:

“Toda a restauração (…) custou R$ 345 mil reais. Com exceção de 10 mil reais doados pela Prefeitura Municipal de Natal, de 20 mil doados indiretamente pelo Governo do Estado e 10 mil reais concedidos pelo Unibanco, todo o restante dos recursos foi arrecadado entre os fiéis paroquianos (…)”(Fonte: Site Natal das Antigas)

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ano 1713/1714

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos – Foto Canindé Soares

Na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, é preservada a Missa Tridentina (celebração rezada em latim), aos sábados as 17h00, e nos domingos as 08h00 e 09h30.

A Igreja do Rosário dos Pretos foi construída pelos negros, para poderem rezar e participar da Santa Missa.

Um hábito colonial era que todo fiel católico participasse de uma irmandade. As irmandades leigas (ou seja, formadas por pessoas que não eram sacerdotes católicos, como padres, freis ou monges), também conhecidas como Ordens Terceiras, eram compostas por pessoas de um mesmo grupo social, então os ricos donos de engenhos participavam de uma irmandade exclusiva, enquanto os homens brancos mais pobres participavam de sua própria irmandade e os escravos negros participavam de sua própria confraria. Cada uma dessas era dedicada à devoção de um santo católico e se prestavam a ajuda mútua de seus filiados, realizando obras de caridade, mas, sobretudo garantindo que os membros tivessem a realização de seus ritos mortuários. Como diz Xirley dos Santos, “o fato de pertencerem a uma irmandade afastava a possibilidade de que seus cadáveres fossem jogados anônimos em valas comuns no exterior da igreja”.

“A partir da contribuição anual de cada irmão, e com um caixa comum, quando morria um irmão ou irmã, a confraria tinha como custear as despesas para que fossem rezadas missas e terços, com cortejo fúnebre apropriado onde os demais irmãos usavam opas e insígnias, e acompanhavam o morto até a sepultura patrocinada pela irmandade no interior das ermidas. Quanto mais alto o lugar ocupado pelo morto entre irmãos, mais cheios de regalias era o serviço funerário” (SANTOS, X.).

Uma das irmandades que encontramos aqui no Rio Grande, em seu período colonial, é a irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, uma irmandade de escravos. Mas não era única (falaremos sobre as outras em outro momento). A primeira irmandade de escravos surgiu em Lisboa, em 1460, na igreja do convento de São Domingo, em que havia uma irmandade de Nossa Senhora do Rosário que foi paulatinamente sendo ocupada por homens negros. É assim que a tradição de irmandades negras devotas a Nossa Senhora do Rosário se inicia. Porém era bem comum também que as confrarias entre escravos e libertos cultuassem santos negros como Santo Elesbão, Santa Ifigênia, Santo Antônio de Cartagena e São Benedito de Palermo.

No Brasil a primeira irmandade de escravos, também em honra a Nossa Senhora do Rosário, é de 1552, em Goiana, Pernambuco. Elas passaram a ser estimuladas pelos jesuítas em seu esforço de catequização dos negros africanos. Não temos a data de fundação da irmandade em Natal (em Caicó ela é fundada em 1771), porém a documentação atesta que desde 1706 a confraria já fazia festas para recolher doações para a construção de sua igreja.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi levantada em 1714. A construção pode ser caracterizada como um rococó tardio, já absorvendo as críticas do neoclássico dos setecentos ao exagero barroco. Porém sua versão atual é bem distinta daquela que foi construída pelos escravos originalmente. A ala lateral, junto com a capela de Bom Jesus do Martírio são construções de 1844, a sacristia e a torre foram adicionadas em 1904. Inúmeras camadas temporais estão expostas neste monumento.

Uma visita a esta Igreja não é completa sem você admirar, de dia, a vista do mirante do Cruzeiro, que fica logo em frente. A igreja tem uma das vistas do rio Potengi mais bonitas da cidade, principalmente para se admirar ao pôr-do-sol. (Fonte: Site Natal das Antigas)

Igreja e Convento de Santo Antônio

E a terceira é a Igreja e Convento de Santo Antônio, que tem administração dos Frades Capuchinhos da Ordem Menor, fundada no ano de 1766. A Igreja é em estilo barroco rococó e abriga em sua lateral o museu de arte sacra.

A mais bem conservada igreja barroca, mas não a única, é a Igreja de Santo Antônio construída em 1766. Mas, primeiro, o que é barroco mesmo? A palavra vem do italiano e definia, lá no século XVII, uma pérola mal formada, de formato “caprichoso”. Na história da arte, ele é um estilo artístico, sobretudo arquitetônico, que se difundiu nos países católicos no século XVII, tendo sua maior expressão nas nações ibéricas, Espanha e Portugal. Obviamente se estava na moda na corte, é claro que também estaria na moda na colônia. Portanto, a arte colonial brasileira é basicamente influenciada pelo gosto ibérico pelo barroco.

Nas cidades mais ricas, como Olinda, Recife e Salvador, e mesmo em vilas como Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, grandes artistas criaram obras de arte espetaculares. Mas em cidades menores, como Natal, as igrejas, apesar de apresentarem os traçados barrocos, exibiram talhas modestas, por causa do fluxo de artistas menos habilidosos e/ou experientes. Isto acontece porque a capital potiguar até o século XIX (no ciclo do algodão) nunca teve uma elite muito rica que pudesse investir muito no embelezamento de seus templos. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, isso não reduz de maneira alguma a importância arquitetônica da Igreja de Santo Antônio.

Terminada em agosto de 1766, ela já pode ser considerada de um Barroco Tardio, mas apresenta características barrocas como uma única torre que termina em forma de guarita (construída em 1799); o frontão, a parte que fica acima da fachada principal, ricamente decorado; o arremate da fachada em forma de volutas; o uso de pináculos e o altar principal revestido por madeira esculpida.

O barroco tardio se caracteriza pelo uso de mais espaços vazios entre as esculturas decorativas dos prédios, causando, nas igrejas, uma sensação de menor opressão do que o barroco clássico imprime. Em termos práticos isto quer dizer que ao contrário do Barroco clássico, apesar da presença ainda de volutas e do frontão decorado, a presença de espaços vazios é bem mais comum na decoração, seja na sua fachada, seja na sua decoração interna.

A decoração interna da igreja segue também os elementos do barroco tardio. Ela possui dois altares laterais esculpidos em madeira e mais um central e possuía o teto decorado com imagens de Nossa Senhora e do seu santo patrono, Santo Antônio de Pádua. O teto, por causa da má conservação, teve seus retábulos (quadros pintados) retirados e dispostos nas paredes do Museu de Arte Sacra que, no entanto, não tem características barrocas, porque foi pintado pelo menos cinquenta anos após a finalização da igreja.

Os altares são esculpidos em madeira, sem aplicações de metal, nem policromia, decorados com as tradicionais folhas de acanto. O simbolismo da folha de acanto, uma erva mediterrânea, é de que as provações da vida e da morte haviam sido vencidas, por causa dos espinhos que a planta possuí, mas também é o símbolo da terra virgem e, por extensão, também da própria virgindade e da vitória sobre o pecado da carne. Ela aparece nas decorações de templos e palácios desde a Antiguidade e Idade Média, mas também em armaduras, porque os heróis e arquitetos também eram homens que venciam os desafios durante a vida, também apareciam em túmulos por causa da ideia de vencer a morte a partir da vida eterna e, nas igrejas, representando a vitória sobre a carne.

Segundo Câmara Cascudo, o capitão-mor Caetano da Silva Sanches, governador da capitania de 1791 a 1800, foi quem mais trabalhou para a igreja ser concluída com a ereção de sua torre. Teria sido ele quem doou o galo de bronze que rebatizou popularmente a igreja com o nome de Igreja do Galo.

Ela ainda possuí um anexo, que hoje serve de convento (desde 1946), mas já teve uma função bem mais mundana. Este anexo serviu de base para os militares da cidade, daí seu nome original, Santo Antônio dos Militares. Ela servia sobretudo de alojamento até 1836. Inclusive era onde a companhia de polícia ficava aquartelada, como nos informa Luís da Câmara Cascudo, em seu História da Cidade do Natal.

Quando os policiais deixaram a igreja, se instalou o Colégio Diocesano Santo Antônio, coordenado pelos frades capuchinhos Cipriano de Ponteccio e Damião de Bozzano. Porém o prédio atual (do anexo) não é o original. Informa Itamar de Souza que em 1946 todo o prédio original fora demolido e reerguido já para abrigar o futuro convento. O prédio atual foi inaugurado em 1º de fevereiro de 1948, com procissão de velas e discurso e bênçãos de Dom Marcolino Dantas. (Fonte: Site Natal das Antigas)

Foto destaque por: Canindé Soares

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